Cem pesquisadores estudam caracteres chineses antigos

Capa editorial com os caracteres chineses hanzi sobre pesquisa de escrita antiga
Ilustração editorial: Chinês Já.
Língua, história e patrimônio

Durante cinco anos, mais de cem pesquisadores de 18 universidades, institutos e museus trabalharam para organizar e interpretar inscrições chinesas antigas. Parte dos resultados está reunida em uma exposição no Museu Nacional da China, em Pequim, com ossos oraculares, bronzes, bambu, seda e documentos administrativos.

Projeto: Caracteres Antigos e Transmissão e Desenvolvimento da Civilização Chinesa
Equipe: mais de cem pesquisadores de 18 instituições
Período estudado: materiais anteriores à unificação Qin e dos períodos Qin e Han
Exposição: Museu Nacional da China, com seis seções temáticas

O que são os jiaguwen, os caracteres em ossos oraculares

Jiaguwen (甲骨文) é o nome dado às inscrições gravadas sobretudo em plastrões de tartaruga e escápulas de boi no final da dinastia Shang, há mais de três mil anos. Reis e adivinhos registravam perguntas sobre colheitas, guerras, clima, doenças, nascimentos e rituais; o calor produzia rachaduras que eram interpretadas e, em muitos casos, o resultado também era anotado.

Osso oracular da dinastia Shang com caracteres chineses antigos pintados de vermelho
Osso oracular conhecido como “invasão de Tufang”, com inscrições destacadas em vermelho. Foto: Xinhua.

Esses registros não são rabiscos primitivos. Já formam um sistema maduro, com ordem de palavras, fórmulas, nomes e sinais usados pelo som. Parte dos caracteres se relaciona a formas modernas; muitos outros permanecem discutidos ou sem leitura segura.

Decifrar não é apenas reconhecer um desenho

Uma inscrição pode estar quebrada, apagada, invertida ou escrita em uma variante que aparece uma única vez. O pesquisador compara forma, posição, frase, material, período e peças semelhantes. Uma leitura precisa explicar não apenas com qual caractere moderno o sinal se parece, mas que palavra representava naquele contexto.

FormaQuais traços sobreviveram e em que direção foram gravados?
FraseA leitura funciona com a gramática e o assunto da inscrição?
SomO sinal pode estar emprestando a pronúncia de outra palavra?
ContextoPeças do mesmo sítio ou período repetem o uso?

Fotografia multiespectral, modelos 3D, bancos de dados e inteligência artificial ajudam a encontrar padrões e a reunir fragmentos. Ainda assim, a conclusão precisa ser argumentada e examinada por outros especialistas; uma semelhança produzida por computador não basta.

Um caractere difícil ganhou nova leitura

O osso da “invasão de Tufang”, associado ao reinado de Wu Ding, contém um sinal que permaneceu sem explicação satisfatória. O professor Chen Jian, da Universidade Fudan, propôs relacioná-lo a formas antigas de 范 e 围 e interpretá-lo, naquela frase específica, com o sentido de invadir ou violar.

A proposta mostra como a pesquisa avança: não por uma tradução instantânea, mas pela combinação de grafia, gramática, paralelos e história fonológica. A leitura continua aberta ao escrutínio acadêmico e pode ser refinada quando novos fragmentos aparecem.

De ossos a bronze, bambu e seda

Manuscrito chinês antigo em seda descoberto em Mawangdui
Trecho do manuscrito em seda Chunqiu Shiyu, de Mawangdui. Foto: Xinhua.
Visitante observa tiras de bambu chinesas da dinastia Han
Tiras de bambu Han de Shuihudi exibidas no Museu Nacional da China. Foto: Xinhua.
SuporteUso frequenteO que preserva
Ossos e cascosAdivinhação ShangPerguntas, datas, pessoas e acontecimentos
BronzeRituais e memória de linhagensDoações, títulos e eventos
Bambu e madeiraAdministração e circulação de textosLeis, contas, cartas e literatura
SedaTextos e imagens de alto valorObras que nem sempre sobreviveram em papel

Não houve uma troca instantânea de uma “fonte” por outra. Formas coexistiram, variaram entre regiões e foram condicionadas pelo pincel, pelo buril e pelo material. A padronização Qin foi decisiva, mas não apagou toda a diversidade.

Jiaguwen não é uma coleção de desenhos fáceis

Alguns sinais nasceram de imagens reconhecíveis, como partes do corpo, animais ou objetos. O sistema, porém, também usa empréstimos fonéticos e combinações nas quais uma parte sugere o campo de significado e outra oferece pista de pronúncia. Por isso, chamar todos os caracteres de “ideogramas” cria uma impressão enganosa.

O estudante deve desconfiar de histórias em que cada traço recebe um significado moderno perfeito. Etimologia séria informa o período, apresenta formas documentadas e admite incerteza. O significado atual de um caractere pode ter mudado muito desde a inscrição antiga.

Uma boa regra: a origem histórica ajuda a aprender, mas não substitui pronúncia, uso em palavras e exemplos reais no mandarim contemporâneo.

Uma exposição com mais de 270 peças e conjuntos

Exposição de caracteres chineses antigos no Museu Nacional da China
Exposição no Museu Nacional da China reúne inscrições em diferentes suportes. Foto: Xinhua.

O projeto começou em 2020 e reuniu mais de cem pesquisadores de 18 instituições. A mostra organizada no Museu Nacional da China apresenta mais de 270 peças ou conjuntos distribuídos em seis partes, acompanhando a escrita anterior à unificação Qin e materiais Qin e Han.

O conjunto não procura apenas exibir objetos bonitos. Ele mostra como a escrita registra administração, memória, crença e circulação de conhecimento — e como cada nova leitura pode alterar o que sabemos sobre uma sociedade antiga.

Fontes e leitura complementar