Por que os chineses não querem mais casar?

Capa editorial pergunta por que menos chineses querem se casar
Ilustração editorial: Chinês Já.
Sociedade e família

Casar ficou burocraticamente mais fácil na China, mas a vida depois do cartório continua cara e exigente. Moradia, festa, presentes, filhos, carreira e expectativas das duas famílias entram na decisão. A queda dos registros não significa o fim do amor: mostra que muitos jovens já não aceitam casamento a qualquer custo.

Primeiro semestre de 2026: 3,275 milhões de casais registrados
Variação anual: menos 264 mil; queda de aproximadamente 7,5%
Comparação: menor nível desde o início da série comparável em 2014
Resposta local: novos pontos de atendimento e ambientes mais convidativos para o registro

Os registros chegaram ao menor nível da série comparável

O Ministério dos Assuntos Civis contabilizou 3,275 milhões de casais no primeiro semestre de 2026, 264 mil a menos que no mesmo período de 2025. A queda foi de cerca de 7,5% e levou o total ao menor nível para um primeiro semestre desde o início da série comparável, em 2014.

PeríodoRegistrosLeitura
1º semestre de 2025cerca de 3,539 milhõesbase calculada a partir da variação divulgada
1º semestre de 20263,275 milhõesmenos 264 mil, aproximadamente 7,5%
Casal recém-casado posa em local de registro de casamento ao ar livre em Pequim
Recém-casados em um ponto de registro ao ar livre no Templo Huguo Guanyin, em Pequim, em outubro de 2025. Foto: Tingshu Wang/Reuters.

O total de registros não mede a qualidade dos relacionamentos nem revela sozinho quantas pessoas desejam casar algum dia. Ele mostra quantos casais formalizaram a união naquele período; datas auspiciosas e feriados também podem deslocar cerimônias entre meses.

O famoso livrinho vermelho do casamento

O documento que oficializa a união é o 结婚证 (jiéhūnzhèng), a certidão de casamento chinesa. É uma pequena caderneta vermelha entregue a cada cônjuge, com fotografias e dados do registro. O vermelho, associado a alegria e boa sorte, domina também convites, envelopes, roupas e decoração de muitos casamentos.

Casais chineses seguram as cadernetas vermelhas de certidão de casamento
Casais exibem as cadernetas vermelhas do registro civil. Foto: China Daily.

Desde maio de 2025, novas regras retiraram a exigência do livreto de registro domiciliar e permitiram formalizar o casamento fora do local do hukou. Parques, centros comerciais e estações ganharam balcões temáticos. A mudança reduz a papelada, mas não altera as despesas e responsabilidades que vêm depois.

Dinheiro pesa antes e depois da festa

Uma pesquisa divulgada em 2026 por equipes ligadas à Universidade Normal de Pequim e ao Xiaohongshu mostrou o tamanho da insegurança: apenas 2,6% dos participantes se consideravam financeiramente muito preparados para casar, enquanto 62,1% se diziam pouco ou nada preparados. A amostra e a metodologia precisam ser observadas, mas o resultado combina com preocupações repetidas em entrevistas e pesquisas.

MoradiaCompra, entrada, aluguel e distância do emprego entram na negociação.
FestaBanquete, fotografia, viagens, joias e presentes podem crescer com a expectativa familiar.
FilhosCreche, escola, saúde e tempo de cuidado pesam no orçamento de longo prazo.
TrabalhoRenda instável e jornadas longas tornam o futuro difícil de planejar.

Em algumas regiões e famílias existe ainda o 彩礼 (cǎilǐ), presente ou pagamento de noivado oferecido pela família do noivo. Valor, forma e importância variam enormemente; tratar o costume como regra nacional ou como “preço da noiva” apaga diferenças e mudanças recentes. Quando se combina com expectativa de apartamento e cerimônia cara, porém, pode elevar a barreira.

Tradições, datas de sorte e pressão dos pais

Casamento une duas pessoas, mas muitas famílias chinesas o encaram como aproximação entre duas redes de parentes. Pais podem participar da busca por parceiro, avaliar emprego e origem familiar ou pressionar filhos adultos com o chamado 催婚 (cuīhūn), a cobrança para casar. Há até encontros organizados por pais em parques, embora os filhos nem sempre concordem.

Datas consideradas favoráveis, como o Qixi ou dias com números auspiciosos, concentram registros. Banquete, chá aos mais velhos, envelopes vermelhos e visitas às famílias continuam importantes para muitos casais. Outros preferem cerimônia pequena, casamento sem festa ou nenhuma formalização. A tensão aparece quando tradição deixa de ser escolha e vira obrigação.

Não existe uma única “família chinesa”: intensidade da pressão, costumes e custos mudam por geração, região, classe social e experiência urbana ou rural.

Mulheres calculam também o custo para a carreira

Para muitas mulheres, a pergunta não é apenas se o parceiro é adequado, mas como serão divididos gravidez, cuidado dos filhos, tarefas domésticas e apoio aos pais idosos. Quando empresas presumem que a mãe faltará mais ou quando a família espera que ela abandone oportunidades, casamento e maternidade podem parecer um risco profissional desigual.

Homens também enfrentam cobranças tradicionais de renda, casa e capacidade de sustentar a família. O resultado é um acordo difícil: ambos podem desejar companhia, mas rejeitar papéis antigos que parecem caros, rígidos ou injustos.

Mudar o cartório não basta

O grupo de pessoas entre 20 e 40 anos diminuiu, mais jovens estudam por mais tempo e a migração urbana alterou o calendário de vida. Esses fatores demográficos se somam à transformação de valores: ficar solteiro já não é visto por todos como fracasso, e um relacionamento insatisfatório não precisa ser preservado apenas para cumprir uma etapa social.

Políticas capazes de influenciar a decisão precisariam atuar em trabalho previsível, moradia, creche, licença parental, distribuição do cuidado e proteção contra discriminação. A China tornou o registro mais simples e até mais bonito; a confiança no futuro continua sendo a parte difícil.

Fontes e leitura complementar