Estudo na China relaciona uso de IA a notas piores entre alunos

Capa editorial sobre inteligência artificial na escola, com a pergunta atalho ou tutora
Ilustração editorial: Chinês Já.
Educação e inteligência artificial

Usar inteligência artificial para terminar a tarefa mais rápido e usá-la para compreender um problema parecem ações parecidas, mas podem produzir resultados muito diferentes. Um estudo que acompanhou 26.811 estudantes chineses encontrou melhora imediata nas tarefas feitas em casa e, ao mesmo tempo, piora nas avaliações realizadas sem ajuda.

Amostra: 26.811 alunos de nove escolas de um condado da China central
Período: 30 meses, de setembro de 2022 a junho de 2025
Situação do estudo: preprint; os resultados ainda precisam ser lidos com as limitações indicadas pelos autores
Diferença principal: terceirizar a resposta foi mais prejudicial do que usar a IA como apoio ao raciocínio
Alunos participam de aula de inteligência artificial em escola de Pequim
Alunos participam de uma aula aberta de inteligência artificial em Pequim. Foto: Ma Ning/Xinhua.
Estudantes programam um robô durante aula de inteligência artificial em Pequim
Estudantes enviam comandos a um robô durante a atividade. Foto: Ma Ning/Xinhua.

A tarefa melhorou, mas a prova piorou

A equipe da Universidade de Hong Kong e da Universidade de Estocolmo comparou o desempenho observado com uma estimativa do que ocorreria sem o uso de IA. Depois da adoção dessas ferramentas, as notas de tarefas subiram em média 18% e o tempo gasto caiu 30%. Nas provas mensais, feitas em condições nas quais o aluno precisava responder sozinho, a queda estimada chegou a 20% em seis meses.

Os pesquisadores chamaram o fenômeno de “penalidade de aprendizagem da IA”. O nome não quer dizer que qualquer contato com um chatbot reduz a nota. Ele descreve uma diferença entre o produto entregue e a capacidade que permanece com o estudante: uma resposta correta pode esconder um processo de aprendizagem que não aconteceu.

Cuidado com a manchete: trata-se de um preprint baseado em dados observacionais e reconstrução retrospectiva de parte do período. A pesquisa encontrou uma associação forte, mas não autoriza dizer que toda IA causa queda de desempenho.

O divisor de águas é o esforço cognitivo

Segundo a reportagem, 81% dos usuários identificados recorriam à IA principalmente para “terceirizar” a tarefa. Eles terminavam muito depressa e recebiam notas altas no dever de casa, mas perdiam justamente o treino de formular hipóteses, testar caminhos e corrigir erros. O efeito apareceu com mais força em disciplinas de ciências humanas, entre estudantes do terço superior da turma e entre meninos.

Outro grupo usava a ferramenta como tutora: pedia pistas, explicações e perguntas intermediárias, mantendo um tempo de trabalho semelhante ao de quem não usava IA. Nesse grupo, o prejuízo foi menor. A diferença ajuda a escapar da discussão simplista entre proibir tudo e liberar tudo.

IA como atalhoPedir a solução final, copiar o texto e esconder os passos. A tarefa fica pronta, mas o aluno não pratica a habilidade cobrada na prova.
IA como tutoraPedir uma pista, explicar o próprio raciocínio, comparar estratégias e só depois conferir a resposta.

Como transformar a IA em tutora

Uma regra simples é não começar pela resposta. O estudante pode escrever o que já entendeu, indicar onde travou e pedir uma pergunta que o faça avançar. Em matemática, vale solicitar a verificação de cada etapa sem revelar o resultado. Em redação, é melhor pedir comentários sobre clareza e argumentação do que um texto completo.

Três pedidos mais úteis

  1. “Não resolva. Faça uma pergunta que me ajude a encontrar o próximo passo.”
  2. “Leia meu raciocínio e indique apenas o primeiro ponto em que ele deixa de funcionar.”
  3. “Crie outro exercício do mesmo tipo e só mostre o gabarito depois da minha tentativa.”

Para a escola, o desafio é maior: se a tarefa pode ser delegada, a avaliação precisa observar o processo. Pedir etapas, fazer pequenas verificações em sala e combinar atividades com e sem ferramentas digitais são caminhos mais informativos do que tentar adivinhar, apenas pelo estilo, se um texto foi produzido por IA.

O que ainda precisa ser comprovado

Parte das informações anteriores a 2024 foi reconstruída por questionários e testes de confiabilidade, não por observação contínua desde o primeiro dia. O estudo também acompanhou escolas de uma região específica, o que impede aplicar os mesmos percentuais automaticamente a todo aluno chinês ou brasileiro.

A contribuição mais útil, por enquanto, é outra: medir apenas velocidade e nota da tarefa pode recompensar o comportamento errado. Se a IA elimina todo o esforço que deveria desenvolver uma capacidade, a eficiência de hoje pode virar dificuldade amanhã.

Fontes e leitura complementar

Dados e regras podem mudar. A matéria distingue informações confirmadas de hipóteses ainda em investigação.